Flashback #1

Hoje passei em frente à minha primeira escola. E de pensar que era lá que eu brincava, corria, me escondia, ria, machucava o joelho... Tudo isso em 20 minutos de recreio! Hoje em dia 20 minutos mal dá para chegar a tempo na aula seguinte...

Com essa motivação, relembrar o(s) tempo(s), resolvi postar a primeira parte de um texto que escrevi para uma disciplina de Filosofia que fiz semestre passado. Adorei o exercício e recomendo a todos!

Parte 1. Memórias vividas?

por Eduardo Chaves - terça, 30 outubro 2007, 17:02

Pensar meus primeiros anos escolares é muito interessante. Digo 'pensar' pois isso é algo que apenas faço menção quando lembro de alguma coisa bem específica desse período, como quando me perguntam como fiz essa cicatriz no dedo indicador. Agora, recorro às memórias vividas para ilustrar meus primeiros anos na "Escuela Rural Juarez", nome de fundação da atual "Escola Classe Granja do Torto".

Meu primeiro dia de aula foi estranho. Eu estava super empolgado para começar, mas olhava pros lados e via coleguinhas passando mal de tanto chorar pedindo pela mãe. Até pensei "nossa, a mãe deles é tão legal que eles não querem largá-las um único minuto sequer!". Até pensei, por um instante, que minha mãe poderia não ser tão legal como eu pensava! Mas vi que não era nada disso...

Ainda me lembro a roupa que usava: um coletinho verde c/ cinza, uma bermuda azul marinho e o tênis do Rambo (a faixa vermelha para amarrar na testa minha mãe não deixou eu levar pra escola)!

Estava eu, então, começando as aulas na única turma de Jardim da escola. A professora Nilma tinha fama de ser muito malvada. Minha tia chegou até a atrasar a entrada da minha prima na escola só para esperar um outro primo ter idade escolar para acompanhá-la na escola. Mas eu não tinha medo dela. Talvez pelo fato de meus pais me passarem muita segurança, ao contrário de minha tia para com meus primos... Mas acabou que ela pediu licença pouco antes de começarem as aulas, ai entrou a professora Vera. Ela era ótima! Todos ficaram apaixonados por ela! (nada sexual ainda, para deixar claro! ;)

Como era uma escola rural, 95% das crianças eram de camadas populares. Ou da "alta classe média-baixa", como costumo brincar. Mas uma coisa que eu não entendia era o porquê de mesmo tendo a mesma condição financeira dos meus colegas, apenas eu tinha o material escolar completo. Naquela época eu não sabia que a carência material não é determinante para a carência afetiva e emocional...

Pois bem, passei para o Pré. A professora malvada voltou de licença e assumiu a minha turma. Ela gritava muito com todo mundo, mas pelo fato de meu pai ou minha mãe sempre me buscar na escola, ir a todas as reuniões e etc, ela era legal comigo. Lembro que correu tudo bem durante o ano e foi nessa época que vi o Diego amarrando os cadarços e finalmente eu aprendi com fazê-lo também! Eu já tinha 6 anos e meu pai tinha que amarrá-los para mim todos os dias, isso era uma vergonha, pois até os meninos do Jardim já sabiam, e eu não.

Cheguei à primeira série como um dos poucos que sabia "ler direitinho". No primeiro dia de aula, na expectativa de ter aula novamente com a professora Vera, soubemos que ela tinha sofrido um acidente de carro e havia morrido. Assim como no dia que meu avô morreu, 3 meses antes, o dia ficou totalmente cinza. A perda realmente era algo novo pra mim, eu não sabia ao certo que sentimentos estavam dentro de mim... Foi difícil esse começo de ano, pois na escola os funcionários, alunos, direção e professores andavam cabisbaixos; em minha casa o clima era pesado devido à morte de meu avô... Mas meus pais tentavam me poupar dessa dor toda, e eu percebi que isso não foi legal em outros momentos da minha vida, pois precisei encarar perdas e foi bem mais difícil do que eu esperava.

Seguiu-se as aulas com a professora Lucinha na 1ª série, a profa Ana na 2ª, a profa. Cola - de Colandy - na 3ª e, denovo, a malvada Nilma na 4ª série. Nessa e´poca, a professora estava mais megera do que de costume, e vários alunos passaram muito mal durante as aulas. Terror total! Principalmente na hora de ir ao quadro e responder questões de tabuada. Lembro que uma vez passei tão mal que desmaiei no meio da aula, bati até a cabeça no chão. Fui pra casa e ficou tudo bem. No dia seguinte eu voltei pra escola e a Nilma disse: "Ou vocês decoram essa tabuada [a tabuada de 7, no caso], ou pode capotar aqui na minha frente que eu não vou nem socorrer!", fazendo referência ao meu desmaio no dia anterior. Percebi tempos depois que essa atitude da professora foi tremendamente repudiável.

Outra coisa que me lembro dessa época na escola foi a primeira paixão. Foi na segunda série, com 8 anos. Eu estava sentado no banco principal do pátio, conversando sobre a escolinha de futebol com o Fabinho e o Cocão. Até que vejo, subindo a rampa, a coisa mais linda que eu já tinha visto. Ela era alta, cabelos cacheados e já usava perfume, olha que coisa! E além do mais, ela era MUITO mais velha, tinha DEZ anos! Fiquei "a fim" dela até o fim da quarta-série. Passei por todas as fases de meninas populares [nem pela Letícia - que já usava sutiã - eu me apaixonei!]. Me mantive firme em meu amor por 3 anos... Um fato interessante é que fiquei sabendo esses dias que a Cícera (esse era o nome dela) tinha casado e tava com uns 7 filhos "lá pras banda do Ceará". A vida e seus caminhos!

Assim, penso que educar é algo muito difícil. As professoras tinham boa vontade [nem tanto a malvada], mas por algum motivo eu não encontro meus colegas mais por aí. Na UnB, não entrou ninguém. Esse processo educacional e todas as ramificações que aparecem no caminho podem mudar completamente a trajetória de alguém. Vi que mesmo garantindo o acesso a todos à escola, não há oportunidade para todos, pois não acredito que eu me dediquei mais que meus colegas para chegar aonde cheguei. Esse caminho onde ocorrem as saídas de rumo também é objeto de estudo da pedagogia. Entender os processos societários que abrem brechas para que muitos não cheguem até o final da estrada é com certeza um grande desafio para a sociedade, em especial para mim como futuro pedagogo.


1 Comment:

  1. Apenas said...
    edu,

    que texto bonito.
    parabéns!

    déia

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